Ficar onde tudo começa
Um vídeo de um cachorro isso, um gato e uma dona aquilo, um casal que nunca vi na vida resolveu ter filho... me agarro em alguma árvore real pra nao ir, mas fui
A correnteza leva
Gostaria de ver alguma poesia, me digo
Mas é a mina, mina, dopamina
Sei que não acontece só comigo, mas é trágico. É desesperador na real, era para buscar uma poesia e perdi a consciência
Quando você acorda no campo,
pisa na varanda e olha o verde,
nota as nuances que mudaram de uma noite de chuvisco para uma manhã mais seca. Você ve um galho, um mujido ao longe. Também aparece um bando de pássaros que já conheces algo... essa sensação de começar o dia com a luz que incide sobre os vasos da varanda, e tentar descobrir em que momento da manhã é isso. É outro encontro com o que te busca. Porque o que chega de uma forma, não chega de outra, tem um fio que une o de antes com o agora, esse fio ou é fio feito na China ou é um fio dos teus retalhos, da lã, da relva.
A rolagem da tela dos olhos não para, o fio vai sempre ao não-lugar, ao não enredo...
O cheiro do boldo batido pela água da chuva te lembra um ar de casa de vó e isso tem liga...
Os marrecos, as mínimas aranhas que tentam entrar em casa na primavera.
Você busca com os olhos, com os ouvidos isso que está se deslizando de instante em instante, quando a natureza é quem hila.
As mãos convém fazer algo, as mãos gostam disso, por isso nós perdemos os dedos nos celulares.
Fazer um mate é perfeito para a manhã, porque despejar água caliente num recipiente com ervas é parecido com a chuva, é colocar o molhado no seco, é misturar a bomba com a concha e unido céu com a terra, há repouso...
Um mate te leva olhar pra fora, mate em si mesmo não combina com telas.
As mãos podem também arrumar os arranjos de folhas do ermo, acender a vela, escolher um livro para pegar de leve enquanto a manhã faz seus movimentos iniciais, como um ato importante do teatro sacralizado.
Ficar quieto de olho fechado e por as mãos no coração também fazem isso que segura a Queda do Céu..
Varrer eu varro pra amassar o chão e pentear o tapete.
Lavar as mãos na pia , molhar o rosto tirando alguma coisa pregada. Essa coisa a gente vai fundo pra buscar, diante da água que vem da cacimba há um choque.
O mais importante é que o devagar aconteça devagar.
Ficar um bom tempo só deitado, ficar onde tudo começa e demorar pra saber o que fazer com as demandas.
As 8h começa um pássaro que eu escutava aos 15 anos no campo. Então as 8h já é a adolescência da manhã. E a Bíblia de um dia é feita sem se fazer.
Se o dia está úmido ainda, as plantas aguentam um pouco mais, mas há sempre as que estão à ponto de partir, assim como em toda família, há sempre doentes a ponto de ir e rezar é bom.
Aguar é uma experiência de ser Deus atendendo preces, parece isso... e a dura realidade de não poder atender a todo jardim... As plantas mais duronas, já peço que esperem, que ajudem...
O chão com pequenos espinhos pedem que andes lentamente, você não conhece nenhum trajeto ainda, não sabe de cor quando tudo está tomado de pequenos espinhos.
Dormir de novo talvez, sair ao trabalho enchendo o carro de tralhas. O mundo pesa e acelera mas antes disso temos esse jardim. Acredito que todo ser humano possa ter, se quiser...mesmo perfurando um cimento. A medicina mais extensa em prazeres é o jardim.
Ver o berçário das beterrabas, a ancianidade das mostardas em Flor... toda ancianidade da lavoura termina em flor...florescem todos e se vão deixando pontinhos de sementes... sementes fora dos pacotes...assim agarradas no caule...
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